25 de junho de 2015

APONTAMENTOS DO MEU JARDIM


Ontem deu-me para isto. Flores! O dia estava encoberto e fresco - mesmo bom para se estar no jardim e lhes sentir o perfume. Pára aqui, espreita ali, senta acolá, e lá fui desenhando este e aquele exemplar:


Feito o esboço, cometi a leviandade de o querer pintar. Como se fosse fácil aprisionar as cores da natureza num bocado de papel! Resultado: entre o folclórico e o pastoso. Bem feito! É para ver se aprendo.



Legenda pseudo-técnica: à esquerda, o grito vermelho da dipladénia, planta exuberante de grandes dotes de alpinismo; à direita, um conjunto de flores-da-fortuna, minúsculas mas cheias de vida:


Duas tentativas frustradas de captar a minha gardénia e o seu branco perfeito e esquivo: à esquerda em botão, à direita desabrochada:


Um raminho da solana e os bagos escarlates do hipericão, já depois de caírem as pinças amarelas, lindas, que formam a coroa farfalhuda das suas pétalas:
Finalmente, à esquerda, três folhas do meu arbusto preferido do jardim: o ácer-anão, o qual, nem de propósito e perante a minha total impotência, parece estar a secar. E no lado direito um dos cachos da hortênsia azul:




20 de junho de 2015

AUTOPICTOGRAFIA


Um auto-retrato? O Desafio nº 55 dos Urban Sketchers para o mês de Junho pôs-me a pensar: qual dos meus rostos, de todos os que sem querer assumo ao longo do dia, haveria eu de registar? Em vez de tentar escolher, preferi desenhar, de uma só assentada, alguns dos "eus" que a minha cara revela: o eu triste, o eu divertido, o eu zangado, o eu aflito, o eu espantado, o eu pensativo... Saiu-me um mosaico de Miús, cada qual a dar o seu bitaite para o retrato conjunto:


Como bónus, e porque falamos não só de auto-retratos mas também de auto-análise, deixo aqui a minha versão da "Autopsicografia" de Pessoa - adaptada, com uns quantos pontapés, à realidade "pictórica" de quem, como eu agora, anda por aí de caderno de desenho e aguarelas na mão:


15 de junho de 2015

A LENDA DO GALO


Isto dos sketches é um bocadinho viciante, não há que ver. Ainda há uns dias fiz um desvio considerável por Barcelos única e exclusivamente para desenhar. Para mais, estava uma tarde cinzenta a ameaçar chuva, mas nem isso me demoveu. De dentro do carro captei o conjunto da Igreja Matriz e das ruínas do Paço dos Duques, construído na primeira metade do séc. XV. Entre os dois fica o pelourinho onde, reza a lenda, um peregrino galego acusado injustamente de um crime local foi agrilhoado. Diz-se que, aproximando-se a hora do enforcamento, fez um último pedido: que o levassem a falar com o juiz. Na casa deste, à hora da refeição, o condenado olhou para o galo assado sobre a mesa e exclamou: "Que eu seja culpado se este galo não cantar três vezes antes de acabar o dia!" Por ter cantado o galo e ter sido absolvido o inocente, Barcelos conta hoje com o símbolo mais colorido e alegre do país.


E aqui, a prova do crime - do meu sketch, não do homicídio atribuído ao galego, que esse ficou por resolver nas brumas do tempo...



14 de junho de 2015

AGORA A CORES...


Só agora tive tempo de voltar a olhar para os meus desenhos do último Encontro USkPN em Braga e dar-lhes cor. Sei que isto contraria a filosofia "in situ" do movimento, mas não quis deixar a preto e branco o registo de um dia que foi tão colorido! Eis o resultado.

O oratório e o campanário de Nª Srª da Torre:


A Capela e a Casa dos Coimbras:


E a Casa do Passadiço, no Largo de S. João do Souto:



Sim, eu sei, aquele azul celeste no segundo desenho era escusado. É o que eu chamo de "Síndrome de Azulite": somos acometidos de uma força sobrenatural que nos impele a pintar o céu de... azul celeste! E o efeito é o de um calendário da loja do chinês. Bah!

4 de junho de 2015

8º ENCONTRO USKPN - EM BRAGA


Pois o 8º Encontro dos Urban Sketchers Portugal Norte foi em Braga, este dia 31. E eu lá saí à rua toda contente, num lindo domingo de sol, com o meu bloco e as minhas tintas (que não cheguei a usar, hélas!). Desta vez, fiz os desenhos logo a caneta e, apesar dos erros e tropeções, não me arrependi, pois a definição é logo muito maior. A primeira paragem foi no cruzamento das ruas D. Gonçalo Pereira com D. Afonso Henriques. Ao fundo, o belíssimo campanário de Nª Srª da Torre, em plena Cividade, ladeado, como é mote bracarense, por nada menos que duas igrejas - à esquerda, a Igreja de S. Paulo; à direita, a Capela de Nª Srª do Oratório:


Nova caminhada e, antes do almoço, outro desenho. Desta vez, a vista é a de um dos mais belos monumentos da cidade: a Capela dos Coimbras (1525), ao lado da casa manuelina com o mesmo nome, reconstruída em 1924. Infelizmente o meu esboço, que tão ligeirinho ia, teve de ser interrompido porque era hora do almoço. Tivemos de avançar, para nos juntarmos ao resto do grupo, já à espera. Tirei esta fotografia já a correr:


À tarde, em "modo" digestivo e num espírito recreativo menos empreendedor, devo confessar que a preguiça atacou, e acabei por só fazer um desenho: o da Casa do Passadiço, soberbo solar setecentista onde funciona hoje uma loja de decoração:


Ficámos por ali, no Largo de S. João do Souto, em amena cavaqueira até ser hora da despedida. Mas não sem antes tirarmos a fotografia de grupo!


Foi um encontro fantástico, com um tempo magnífico e sobretudo em óptima companhia. Temos de organizar mais ocasiões destas!

31 de maio de 2015

PELAS ARCADAS DE BOLONHA


Uma das belezas de Bolonha são as arcadas que a percorrem, pelos dois lados de todas as ruas, ao abrigo do sol e das intempéries, com chão de marmorite (lisinho!), em quilómetros e mais quilómetros de puro conforto. Sentada calmamente numa gelataria da Via Castiglione, aventurei-me num desenho difícil, que levou tanta borracha quantos os erros de perspectiva que teimavam em aparecer. Mas lá consegui captar os arcos sucessivos, em contraluz, com edifícios medievais do outro lado. Um autóctone sentou-se na base de uma coluna, imóvel enquanto olhava para o telemóvel, permitindo-me rabiscá-lo sem problemas. As cores pu-las agora, na paleta típica de Bolonha: os tons pastel, onde os alaranjados abundam. Aqui ficam os passos da pintura:


Eis o resultado, cuja luminosidade me faz lembrar o calor tórrido que se sentia (e era apenas a segunda semana de Maio!):

Mais uma vez, aqui deixo também um registo de moi-même no "local do crime", em frente ao Palazzo dela Mercanzia, que no meu desenho aparece discretamente ao fundo:




27 de maio de 2015

REGRESSO A ITÁLIA


Uma viagem de trabalho à Toscana sabe sempre um bocadinho a lazer. Que sorte! Depois de sete anos sem lá voltar, eis que um intercâmbio docente Erasmus me faz regressar a Florença em pleno Maio - um mês em que já há muitos turistas, mas não tantos como no Verão. Primeiro parei em Bolonha, onde fiz dois esboços que, agora, pude aguarelar. O primeiro mostra as "Duas Torres" no coração da cidade, inclinadas uma para a outra como que a cumprimentar-se. Sim, não é só em Pisa que os italianos erraram nos cálculos do fio de prumo! Comecei pela da direita, a Torre Asinelli, e depois passei à Garisenda, mais baixa e discreta:


Cá em baixo, trabalhos na estrada, com sinais, vedações, focos coloridos e muita confusão, que optei obviamente por não representar em detalhe. Gente também, muita! Mas fiquei-me por algumas figuras no canto inferior direito: 


O céu, luminoso, e o pináculo da Asinelli quase a perfurá-lo:



E aqui deixo a aguarela terminada, com os fios dos eléctricos suspensos no ar. Li que a Torre Asinelli, construída em 1109, tem quase 100 metros (97, para ser exacta) e uma inclinação de 2,2 m. A Torre Garisenda só tem 47 metros mas uma inclinação mais acentuada (3,2 m). Que vos parece? Gostam das "Due Torri"? 


Finalmente, como prova, a "yours truly" in situ:


15 de maio de 2015

ÀS PORTAS DA CIDADE


Mais um desenho de Braga, e mais um do Arco da Porta Nova. Desta vez, no entanto, o ângulo é o oposto do que representei na anterior aguarela, olhando-se agora de fora para dentro. O esboço era exigente, com prédios altos em primeiro plano e, mais uma vez, muitas janelas. O Arco, esse, precisou de várias camadas de tinta, para dar voz a tantas marcas do tempo:


As janelas eram de todos os tipos: das de guilhotina às de abertura longitudinal, altas e baixas, com e sem sacada:


Passei às sombras, carregando nos cantos e nos beirais, como os do Museu da Imagem, o prédio vermelho do lado esquerdo, que me saiu de um rosa desmaiado...


De seguida defini três transeuntes - um, distante, caminhando devagar, e duas jovens em primeiro plano, todas despachadas - terminando, por fim, com o céu claro lá em cima:


Acabado!



5 de maio de 2015

MIL E UMA JANELAS


É um dos conjuntos de fachadas mais bonitos de Braga, cheio de cor e pormenor, em plena Rua do Souto. Fica em frente a um edifício que me é particularmente querido: a Reitoria da Universidade, outrora Paço Episcopal, onde defendi a minha tese de doutoramento e fiz as provas de agregação. Deitei mãos à obra, não sem antes ser assaltada por alguns pensamentos derrotistas: "onde me vou eu meter, com tantas janelas, e sacadas, e telhados?" Mas lá continuei, com paciência e determinação. Mais tarde vieram as cores, que desta vez tiveram uma função meramente decorativa, já que a informação estava toda no desenho:


Alguns dos prédios estão revestidos a azulejo (glup, mais pormenores) e no meu desenho passavam peões, uma das quais com um cão que me saiu um pouco como uma raposa (ou um qualquer mamífero de quatro patas, em todo o caso):


Aleluia, missão cumprida!


Trata-se de um desenho que, realmente, leva toda a primazia à aguarela, deixando pouco à imaginação. Foi um bom exercício, mas quero treinar mais a síntese nos próximos trabalhos. A ver vamos.

1 de maio de 2015

PONTO DE FUGA


Sentada à sombra numa das muitas esplanadas do centro histórico de Braga, tive tempo de sobra para captar a perspectiva afunilada dos prédios antigos que se situam no enfiamento do Arco da Porta Nova. Trata-se de uma rua pedonal, a D. Diogo de Sousa, muito bem conservada, com algum comércio tradicional e muitos cafés. O desenho tinha muita informação, mas optei por só a detalhar um pouco mais no primeiro plano. Depois de alguns avanços e recuos (leia-se, vários erros e rasuras), acabei por gostar do meu esboço, com linhas rectas e limpas:


A cor veio depois em casa. Do lado esquerdo, muitas varandas - algumas floridas! Do lado direito, sacadas com grades de ferro trabalhado:


Ao fundo, as portas da cidade, e em primeiro plano um lojista, de mãos atrás das costas (ficou um pouco marreco, mas paciência):


Manchas de sombra no chão e de azul no céu e...


Pronta! Eis a minha aguarela de uma tarde de sol em plena Primavera:


28 de abril de 2015

UMA FACHADA BARROCA


Braga é conhecida como "Cidade Barroca", e os Paços do Concelho, onde funciona a Câmara Municipal, fazem-nos perceber porquê. Trata-se de um exemplar lindíssimo, do séc. XVIII, a juntar a numerosos outros. Numa tarde de Março fui até à Praça do Município e, sentada num dos bancos de pedra, rabisquei parte da fachada - da autoria de André Soares. As cores, acrescentei-as apenas hoje:


Desta vez optei por um estilo mais livre - leia-se, borratado. E mantive o traço a lápis, sem reforço de tinta:


À hora a que captei o desenho, as sombras já se alongavam...



Mas o céu estava limpo, de um azul pálido, ainda com sabor invernal:


24 de abril de 2015

NANÁ NOS BRAÇOS DE MORFEU


Foi apanhada na rua mas teve direito a nome de heroína de Balzac. Um nome, diga-se de passagem, que lhe assenta como uma luva, criatura bela e sedutora que ela é. A Naná é também uma óptima companhia. Terna e silenciosa, costuma aninhar-se ao pé de mim, no sofá, enquanto escrevo no computador. Quando a vi nesta posição adorável, de braços postos ao peito em pleno sono, não resisti a fazer-lhe o retrato. Aqui deixo os passos da aguarela:


E, secas as tintas, a Naná ficou assim plasmada para a posteridade:


Confesso que esta foi a primeira aguarela, desde que comecei esta aventura de sketching, que vai ter direito a ir para uma parede cá de casa, com moldura e tudo. A minha filha mais velha reclamou-a para o quarto dela, apesar daquela mancha teimosa que ficou a li a enodoar o fundo branco...

20 de abril de 2015

7º ENCONTRO URBAN SKETCHERS PORTUGAL NORTE


Foi ontem, no Parque da Cidade, no Porto. Depois de umas nuvens matinais ameaçadoras, pôs-se um dia lindo, com o céu totalmente azul. Cheguei pela hora do almoço, a tempo justamente do piquenique em grupo, junto ao lago. Comida a quiche (obrigada, Elsa!), pus-me a desenhar o lago e todo o mosaico verdejante de árvores como cenário. Não foi fácil! Junto à margem, um casal de namorados... namorava.  E a água resplandecia ao sol. Aguarelei o sketch mesmo ali:


Depois, fomos para o Pavilhão da Água. Sentada num banco de jardim "a sério" (as pedras irregulares junto ao lago não tinham sido a melhor opção, eheh), registei o edifício - que esteve em tempos na Expo 98. É uma caixa semi-suspensa sobre um declive, com barras horizontais e uma estrutura em ferro ligeiramente inclinada para trás. Tenho de lá voltar para o visitar por dentro:


Os desenhos ficaram fracos, mas foi uma bela tarde, com boa conversa, óptima companhia e muitas gargalhadas. E aqui fica a fotografia do grupo da tarde: