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17 de setembro de 2023

A CASA DOS MEUS AVÓS

Do lado materno, a família era particularmente numerosa, ramificada, cheia de histórias que a minha Mãe contava tão bem. Mas da casa, enorme, ficou apenas a estrutura e pouco mais, depois de uma remodelação violenta e sem cuidado que há mais de três décadas a roubou de todo o seu carácter e encanto. O mirante, por exemplo, o mais emblemático elemento arquitetónico, foi derrubado sem apelo nem agravo. O registo do que a casa foi só existe fotograficamente  e, agora, vertido neste desenho, numa tentativa que faço de voltar a uma infância distante, em que ainda todos eram vivos e eu não sabia que era feliz:


O desenho a preto-e-branco talvez reproduza melhor o espírito da fotografia, antiga e melancólica, bem como o manto de cinza com que o tempo empalidece a memória:

15 de junho de 2015

A LENDA DO GALO


Isto dos sketches é um bocadinho viciante, não há que ver. Ainda há uns dias fiz um desvio considerável por Barcelos única e exclusivamente para desenhar. Para mais, estava uma tarde cinzenta a ameaçar chuva, mas nem isso me demoveu. De dentro do carro captei o conjunto da Igreja Matriz e das ruínas do Paço dos Duques, construído na primeira metade do séc. XV. Entre os dois fica o pelourinho onde, reza a lenda, um peregrino galego acusado injustamente de um crime local foi agrilhoado. Diz-se que, aproximando-se a hora do enforcamento, fez um último pedido: que o levassem a falar com o juiz. Na casa deste, à hora da refeição, o condenado olhou para o galo assado sobre a mesa e exclamou: "Que eu seja culpado se este galo não cantar três vezes antes de acabar o dia!" Por ter cantado o galo e ter sido absolvido o inocente, Barcelos conta hoje com o símbolo mais colorido e alegre do país.


E aqui, a prova do crime - do meu sketch, não do homicídio atribuído ao galego, que esse ficou por resolver nas brumas do tempo...