31 de agosto de 2026

A GRAND-PLACE

O meu segundo desenho em Bruxelas foi feito em plena Grand-Place, o ex-libris da cidade, de uma beleza única, exemplo do barroco flamengo. Espantei-me de não ver ali nenhuma igreja, mas vim depois a saber que este é, justamente, um raro exemplo de uma praça central sem uma igreja ou outro monumento de oração, o que demonstra a sua natureza mercantil e administrativa. No meu enquadramento apanhei parte do imponente edifício gótico da Câmara (do séc. XV, que resistiu aos bombardeamentos do final do séc. XVII) e algumas das harmoniosas fachadas de prédios, particulares e públicos, construídos no final desse século na sequência da destruição: 


Desta vez não pintei o desenho, pois é nas linhas que a riqueza arquitetónica deste conjunto se revela. Em termos de cores, destaca-se o amarelo intenso da folha dourada que reveste os coruchéus, pináculos e capitéis. De resto, o tem bege da pedra calcária reina por toda a praça, com alguns toques de cinza da pedra azul belga (pierre bleue ou petit granit).

Fiquei curiosa com o facto de a palavra "place" (do género feminino) ter o adjetivo "grand", forma do masculino. Descobri agora que em francês antigo, grand era um adjetivo epiceno, isto é, tinha a mesma forma para masculino e feminino. "Grand-place" é, pois, uma relíquia lexical, semelhante à palavra "grand-mère". Mistério resolvido. Em português, curiosamente, "grã" (com a mesma pronúncia de "grand") é o feminino de "grão" -- e ambos sobreviveram até hoje como formas conservadoras.