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31 de agosto de 2026

A GRAND-PLACE

O meu segundo desenho em Bruxelas foi feito em plena Grand-Place, o ex-libris da cidade, de uma beleza única. Espantei-me de não ver ali nenhuma igreja, mas vim depois a saber que esta é, justamente, uma particularidade desta praça, a de não ter qualquer monumento de oração, o que demonstra a sua natureza mercantil e administrativa. No meu enquadramento apanhei parte do imponente edifício gótico da Câmara (do séc. XV, que resistiu aos bombardeamentos do final do séc. XVII) e algumas das harmoniosas fachadas de prédios, particulares e públicos, construídos no final desse século na sequência da destruição, que são um esplêndido exemplo do barroco flamengo: 


Desta vez não pintei o desenho, pois é nas linhas que a riqueza arquitetónica deste conjunto se revela. Em termos de cores, destaca-se o amarelo intenso da folha dourada que reveste os coruchéus, pináculos e capitéis. De resto, o tom bege da pedra calcária reina por toda a praça, com alguns toques de cinza da pedra azul belga (pierre bleue ou petit granit).

Fiquei curiosa com o facto de a palavra "place" (do género feminino) ter o adjetivo "grand", forma do masculino. Descobri agora que em francês antigo, grand era um adjetivo epiceno, isto é, tinha a mesma forma para masculino e feminino. "Grand-place" é, pois, uma relíquia lexical, semelhante à palavra "grand-mère". Mistério resolvido. Em português, curiosamente, "grã" (com a mesma pronúncia de "grand") é o feminino de "grão" -- e ambos sobreviveram até hoje como formas conservadoras.

27 de agosto de 2026

UMA PRAÇA EM BRUXELAS

Já foi em junho que estive em Bruxelas, e tive o supremo azar de o fazer em plena onda de calor. Temperaturas de 40ºC num país habituado a verões amenos, se não mesmo frescos, não são fáceis de suportar. Os espaços interiores públicos, com exceção dos hotéis, não estão preparados para o calor. Quase nunca se encontra restaurantes e cafés com ar condicionado. Aquecimento para o inverno, sim, mas só umas míseras ventoinhas para o verão -- e com sorte. Museus e monumentos: idem aspas. Fui ao Museu Magritte e subi ao Atomium... e em nenhum deles havia AC. Enfim, isto explicará por que é que tive de me resignar a desenhar a partir do quarto do hotel. A vista para a praceta, ou Place Agora, na Rue du Marché aux Herbes, abrange a torre da Grand Place, mesmo ali ao lado (que também desenhei, mas depois):

Do lado direito, a vista estendia-se até ao edifício envidraçado (a torre OXY, na Place de Brouckère) onde, uns dias depois de regressar a casa, houve um trágico incêndio em que morreram seis pessoas:

A composição que fiz foi panorâmica, ocupando as duas páginas do caderno. Infelizmente, as cores saíram garridas em demasia. No entanto, dado o sol intenso, talvez as cores estivessem mesmo mais brilhantes:

Aqui a fotografia no local, com o esboço: