6 de junho de 2016

UMA ESQUINA, DUAS ÉPOCAS


Fiz este esboço ainda em Maio, num dos poucos dias de sol resplandecente que temos tido por aqui nesta Primavera desconsolada. Esquina da Avenida Central com a Rua dos Chãos. À direita, o Banco de Portugal, à esquerda, um edifício de escritórios e apartamentos, de estilos tão diferentes como as décadas que os viram erguer-se (Anos 20 e 70, respectivamente):


Depois de variados pontapés, sobretudo nas varandas caprichosas do edifício moderno, onde falhei miseravelmente a perspectiva, pus uns transeuntes nos passeios e uns turistas debaixo do guarda-sol de uma das esplanadas da Arcada. Foi, aliás, na esplanada ao lado que também eu me sentei comodamente, com um sumo de laranja a acompanhar o desenho. Só em casa, como é costume, apliquei a aguarela, fiel à minha filosofia de que devemos acarinhar os "filhos" aleijados da mesma forma que os escorreitos. 


Nota de rodapé: podem mandar o sol outra vez cá para cima. Não nos importamos.

4 de junho de 2016

LIVROS E ÁRVORES


São uma bela combinação. Feira do Livro 2016 no Parque Eduardo VII, fim-de-semana passado. Céu azul, ou predominantemente azul, stands coloridos, muita gente... – e desníveis a chamar ao desenho:



Os materiais, muito inadequados: papel de impressão demasiado fino para aguarela e a única caneta que tinha à mão: uma Uni-ball azul (que felizmente resiste à água). Mas às vezes, quando o papel não presta e a pressão diminui, a mão solta-se e tudo fica mais fácil...

1 de junho de 2016

VARANDA COM VISTA SOBRE A CIDADE


E neste primeiro dia de Junho, finalmente de sol, venho recordar Atenas. As Cariátides foram para mim a coisa mais bonita da Acrópole. O termo "cariátides", em rigor etimológico, significa "raparigas de Cariai", uma cidade do Peloponeso onde as festividades em honra da deusa Artemisa envolviam danças das jovens mulheres com cestos de juncos à cabeça. Em termos arquitectónicos "cariátides" são, pois, colunas esculpidas em forma de jovem mulher. Na Acrópole, elas surgem no templo de Erecteion, em número de seis, voltadas para o vale em poses majestosas e seráficas. Tentei captá-las num desenho:


Estive em Atenas pela primeira vez em 2005, no mês de Outubro, em trabalho. Foi uma sorte o calor mais tórrido do Verão estar ultrapassado. No Outono as temperaturas estavam já amenas e consegui subir à Acrópole sem destilar:


Mas não se iludam: as beldades de pedra atrás de mim são apenas réplicas. As originais tiveram de ser removidas em 1978 para escaparem à erosão e à poluição, estando agora expostas no Museu da Acrópole. Todas  excepto uma, que um explorador inglês "subtraiu" em 1810 e que figura hoje no Museu Britânico.

23 de maio de 2016

16º ENCONTRO USkPN


Foi este sábado, em S. João da Madeira, o 16º encontro dos Urban Sketchers Portugal Norte. Dia muito nublado, mas boa disposição e ainda melhor companhia. Aqui deixo os meus gatos e gatafunhos da primeira paragem - no cimo da Av. da Liberdade, a partir dos degraus da Câmara:


O programa previa 15 minutos para este desenho, mas eu, completamente absorta, já devia ir nos vinte e tal quando me voltei, à procura do autocarro e dos outros sketchers. Ninguém à vista! Bem feita, é para não me distrair assim. Desisti do desenho e dei corda aos sapatos. Nada de aguarela, portanto, que só pôde acontecer em casa:


Mais tarde, recuperado o fôlego, fiz um segundo desenho. Foi na Praça Luís Ribeiro. Sentada no degrau de uma montra, saquei do bloco e rabisquei duas das estruturas curvas que dali se viam: o prédio à esquerda e um passadiço coberto que circunda a praça:


No final do dia, a fotografia de grupo:


19 de maio de 2016

UM COPO COM GLICÍNIAS


São plantas trepadeiras de um perfume doce e intenso, que crescem por vezes, quase milagrosamente, de forma bravia em jardins abandonados. Foi num deles, numa rua aqui perto, que colhi três raminhos. Aqui os deixo, mas sem o aroma de Primavera que inundou o meu quarto:


As cores saíram-me terrivelmente mal: o lilás típico das glicínias saiu-me um teimoso tom de violeta (o que não admira, pois usei "purple lake" quase sem azul). Por isso deixo aqui também o desenho, que sempre me agradou um pouco mais do que a aguarela:


12 de maio de 2016

VISTA À RÉ


Pelos vistos, tomei o gosto por desenhar carros, ou pelo menos o "nosso" carro (de família), o Volvo de que aqui falei há dias. Aqui o deixo com outra cor e outro ângulo:



E aproveito para oferecer uma pérola filosófica. Já repararam que muitos objectos não são concebidos para ser vistos por trás? Pensem por exemplo nos armários: alguém se preocupa com o design da face que fica virada para a parede? Ou os anéis: apesar de a mão se mover, abrindo, fechando e mostrando a palma e o interior dos dedos, a maioria dos anéis é feita para ser vista só de um lado, o lado de fora. E pela mesma lógica alinham tantas outras coisas. Pelo contrário, nos carros a parte de trás é tão ou mais importante, e identificadora, que a da frente ou a dos lados. Bem, e chega de profundas reflexões. Vou apenas ficar a aguardar que a editora do Wittgenstein me contacte, para finalmente enriquecer com um best-seller.

10 de maio de 2016

UM CARRO PARA FLORIAN


Fiz este desenho como tributo a Florian Afflerbach, um urban sketcher que, com apenas 35 anos de idade, morreu este dia 5 em Siegen, na Alemanha. Era arquitecto e professor universitário, mas era sobretudo, diz quem com ele conviveu, uma pessoa generosa e boa. Apesar de eu nunca o ter conhecido pessoalmente, seguia com admiração as publicações dele no Facebook. Os carros antigos eram a sua paixão confessa, mas era também exímio no desenho arquitetónico, tendo um estilo depurado, de uma elegância serena (vejam aqui). Quando foi abalroado numa rotunda onde tinha prioridade, ia ironicamente a conduzir uma motocicleta clássica, a Quickly S, que ele tinha restaurado há pouco tempo e cujo desenho consta no cabeçalho da sua página FB. A minha modesta homenagem (cuja versão em inglês aparece no blogue internacional dos USk) não podia ser senão o desenho de um carro clássico:


Trata-se do Volvo Amazon, quase idêntico ao que foi o carro lá de casa durante longos anos. O nosso era preto, de 4 portas, com estofos vermelhos de cabedal que, curiosamente, eram corridos mesmo na parte da frente fazendo um longo banco único. O meu Pai comprou-o em 1962, vindo a vendê-lo no fim dos anos 80 por tuta-e-meia. O carro é um daqueles objetos que estão intimamente ligados à história de uma família, particularmente no tempo em que duravam tantos anos. Aqui deixo uma fotografia de 1966 com os meus pais, o meu irmão e a minha irmã (ao colo); eu nasceria uns anos depois - e viajaria no "nosso Volvo" toda a minha infância:


8 de maio de 2016

PAREDES BRANCAS DE ARZILA


Acabadas as chuvas de Abril, parece que voltámos ao dilúvio. Com licença, vou ali a Marrocos apanhar sol e já volto. Uma das coisas boas destas viagens pelo meu álbum de recordações é que sou dona do tempo - tanto na vertente meteorológica como cronológica. E também sou senhora do espaço. Controlo as deslocações aéreas e evito as enchentes nos aeroportos; vou onde quero no momento em que quero! E sem atrasos, nem filas de passaporte, nem controlos alfandegários... Pois bem, onde me apetece voltar hoje? Pode ser ali ao sul, passando o ferry para África. Ora vejam a beleza deste branco contra o azul do mar (bem, a beleza vê-se ao vivo; aqui está bastante adulterada, mas adiante):



São as muralhas de Arzila, 40 km a sul de Tânger, construídas pelos portugueses durante a primeira ocupação (1570-1650). A minha "ocupação" de Arzila, para sorte dos marroquinos, durou bastante menos (uma tarde) e foi em 2009:


3 de maio de 2016

NANÁ


"Elle eut une dignité de reine offensée."
Émile Zola, Nana (1880)

A minha gata tem nome de heroína de romance. E, tal como a homónima de Zola, tem uma dignidade de rainha – ofendida ou não, tanto faz. O que é certo é que ela reina, soberana, dia fora, noite dentro, pela casa que é só dela. E dorme, dorme...
Três sarrabiscos, trinta segundos. Não se pode dizer que lhe tenha prestado vassalagem condigna com este desenho tão tosco. Mas fica o registo. E a verdade é que já, em tempos, a pintei de forma bem mais cuidada (aqui), também em sono profundo, por sinal. Viva o hedonismo onírico!

2 de maio de 2016

BAGAS VERMELHAS E UM CHAPIM


Os chapins são passarinhos adoráveis, com uma máscara ocular tipo Zorro, que se podem ver em grande parte de Portugal continental. Este que aqui deixo é um chapim azul. Trata-se do terceiro quadro para o tríptico de "paper cutting" que me deu na cabeça fazer (para juntar ao da corça e ao do veado). Desta vez, resolvi pintar o desenho principal todo a aguarela, já depois de o ter recortado. Não estou certa de ter feito uma boa escolha, mas o que está feito está feito:


Como já aqui disse, isto do paper cutting não é hobby para ninguém, pois requer antes de mais um seguro... aos dedos! Enfim, mas lá que é divertido, é. Aqui deixo uma imagem do processo e também a versão final, já emoldurada.



Eis o tríptico, com o fundo em papel ondulado bege a dar unidade ao conjunto (e com o meu rebento a dar-me indicações de enquadramento da fotografia):




27 de abril de 2016

OS ALUNOS


Dizia um antigo professor meu que felizmente os alunos não envelhecem nunca. Assim parece, realmente. Ao passo que nós, como toda a gente, vamos mostrando cada vez mais a idade, temos sempre alunos jovens à nossa frente, como se o tempo não passasse por eles. Ano após ano conhecemos turmas novas, cheias de caras frescas como alfaces:



O meu professor tinha razão. Uma das coisas boas da nossa profissão é lidarmos com gente jovem e saudável. Em princípio, claro. Não lidamos com a doença, como os médicos e os enfermeiros, nem com o conflito, como os advogados e os juízes, nem com a burocracia, como os funcionários e os técnicos. É claro que, por vezes, também nos deparamos com casos de doença, conflito e (é certo) uma boa dose de burocracia. Mas não é essa a natureza do que fazemos. Cabe-nos ensinar e acompanhar pessoas na flor da idade, que querem aprender, fazer coisas, "começar" a vida – e este impulso de renovação e recomeço consegue contagiar-nos. Os alunos são sempre diferentes, claro, a cada semestre que passa, mas na memória acumulada e confundida ano após ano, é como se fossem sempre os mesmos, imutáveis, sempre jovens. Sempre com 20 anos... Por isso, a Alexandra, o Tiago e a Joana – alunos meus que tento retratar acima – representam, apesar de únicos e irrepetíveis na sua individualidade, essa essência de juventude que aos meus olhos continuamente se repete e eterniza.

20 de abril de 2016

TORPOR NA RELVA

Though nothing can bring back the hour 
Of splendour in the grass, of glory in the flower, 
We will grieve not, rather find 
Strength in what remains behind
(William Wordsworth)

Chamar-lhe "esplendor" seria talvez demasiado poético, mas este preguiçar indolente sob o sol da tarde tem na verdade um pouco da glória dos prazeres simples. E tem também aquele brilho tão especial da luz de Abril, captado entre chuvadas de Primavera. Uma pequena extravagância, estes minutos roubados à rotina do trabalho:
Não costumo desenhar com lapiseira Bic, mas desta vez foi o que tinha à mão. O papel? Bem, o único que encontrei: uma das folhas A4 que tinha na impressora do meu gabinete. Algumas das figuras, como se vê, nem mereceram cor, tão frágil e delicado se mostrou o papel perante a aguarela...




Possamos nós, como aconselha Wordsworth, colher força no passado para fazer face ao futuro. Ou, no que toca a sestas na relva, gozar estes intervalos de sol para aguentar a chuva toda que ainda está para vir.

18 de abril de 2016

UM VEADO ENTRE BÉTULAS


Quando estive na Finlândia há dois anos, lembro-me bem de ter notado a omnipresença das bétulas no imaginário turístico local: os seus troncos altos, finos e prateados, marcados por linhas negras horizontais, apareciam em tudo, de posters a brinquedos, de utensílios a souvenirs variados. Numa das excursões do colóquio a que fui, perto de Helsínquia, vimos florestas de bétulas, mas na altura verdejantes (era Junho). É claro que não tive a sorte de me cruzar com um veado de armação imponente como este (era bom, era), mas quis transpô-lo para a nossa latitude meridional, espreitando por entre o emaranhado de árvores:


Foi o meu segundo trabalho de paper cutting, feito a pensar num tríptico (para juntar a este e a um outro que há-de vir). Desta vez, usei aguarela sobre traço leve a lápis, apenas para destacar a figura do animal. Note-se que o fiz, algo estranhamente, antes de recortar o desenho pelo lado do avesso:

Passei depois ao x-acto, sempre na face interior, para não ficarem visíveis as marcas dos cortes. Corta-por-aqui, corta-por-ali e... pronto!


É caso para dizer que, desta vez, o corte-e-recorte me levou ao... Norte!

14 de abril de 2016

BOA NOVA


Não, não tenho nenhuma notícia particularmente boa para dar, além de que, é certo, me diverti bastante com este desenho. É a Casa de Chá da Boa Nova, do Siza Vieira, em Leça da Palmeira. Já estava há que tempos para a desenhar. E foi este sábado. Uma maravilha, o sol que acabou por brilhar! Deu-me logo vontade de sair, apanhar ar, desentorpecer e exercitar (sedentária incorrigível em que me tornei). Peguei na bicicleta e lá fui, passeio fora, mesmo junto às ondas. O mar estava lindo, um pouco revolto, ainda invernoso, mas a luz, límpida.


E em casa veio a aguarela:


7 de abril de 2016

A MINHA MAGNÓLIA AMARELA


Comprei uma magnólia supostamente amarela há cerca de três anos, num vaso com uma haste já bem enraizada e ornada de algumas folhas viçosas. Uma magnólia chinesa ("fei huang"), disseram-me, muito rara e procurada. Nada de flor, porém, pois era verão e as magnólias florescem no inverno. Vim para casa esperançada de que no inverno seguinte haveria novidades. Transplantei-a e pegou bem, mas nada. E dois invernos depois, zero ainda. Comecei a duvidar da minha escolha e a lamentar não ter antes trazido um exemplar em branco ou rosa, mais comuns e menos exóticos. Vejo tantos pela vizinhança, pejados de flor, desde finais de Janeiro! Eis senão quando, no fim de Março - ou seja, já na primavera - a minha magnólia renitente finalmente se resolveu a dar um ar da sua graça. Brotaram vários botões carnudos, de um amarelo pálido, que se abriram em pétalas aveludadas, de delicada fímbria translúcida. Ah!... Isto merece um desenho!



Perdoada a minha árvore preguiçosa e admirados os seus belos caprichos florais, o meu deleite estava no entanto condenado a esmorecer: as flores envelhecem depressa, acastanhando e apodrecendo antes de cair. Beleza efémera, está visto, mas mesmo assim... beleza!