Comprei uma magnólia supostamente amarela há cerca de três anos, num vaso com uma haste já bem enraizada e ornada de algumas folhas viçosas. Uma magnólia chinesa ("fei huang"), disseram-me, muito rara e procurada. Nada de flor, porém, pois era verão e as magnólias florescem no inverno. Vim para casa esperançada de que no inverno seguinte haveria novidades. Transplantei-a e pegou bem, mas nada. E dois invernos depois, zero ainda. Comecei a duvidar da minha escolha e a lamentar não ter antes trazido um exemplar em branco ou rosa, mais comuns e menos exóticos. Vejo tantos pela vizinhança, pejados de flor, desde finais de Janeiro! Eis senão quando, no fim de Março - ou seja, já na primavera - a minha magnólia renitente finalmente se resolveu a dar um ar da sua graça. Brotaram vários botões carnudos, de um amarelo pálido, que se abriram em pétalas aveludadas, de delicada fímbria translúcida. Ah!... Isto merece um desenho!
7 de abril de 2016
6 de abril de 2016
UMA RUA A DESPEDIR-SE DO INVERNO
A rua é a Avenida Central, no centro histórico de Braga, mas o inverno podia ser qualquer um. Todos os invernos despem as árvores, escurecem o céu e dão às pessoas um certo ar cabisbaixo, entre o transido e o alheado:
Este desenho fi-lo in situ, de dentro do carro, já ao entardecer: muitas janelas, muitas sacadas, uma igreja (sempre) e uma tília à espera da primavera:
Tópico:
Braga
2 de abril de 2016
A CORÇA E O FILHOTE
Li algures que hoje é o Dia Internacional do Livro Infantil, celebrando o nascimento de Hans Christian Andersen. Calha bem! Passei parte da manhã, neste sábado nublado e temperamental, a desenhar um novo quadro para o meu rapazinho (já falei doutras empreitadas aqui). À cena mãe-filho tipo "Bambi" acrescentei uma rosácea geométrica. Desta vez, no entanto, em vez de pintar resolvi fazer paper cutting. Nunca tal coisa tinha tentado, mas foi bem divertido. Aqui estou eu em pleno labor de corte e recorte, com o meu material novo em folha:
Não sei que base é esta que me venderam numa papelaria especialmente para o efeito, mas é milagrosa: apesar de a lâmina ser finíssima, é impossível de perfurar ou riscar. Concluídos os recortes, feitos sobre o desenho a marcador preto, passei à moldura, virando do avesso o papel (convém que este tenha uma boa espessura para aguentar a pressão dos recortes - usei 180g). E tive, é claro, ajuda do meu pequeno art expert, que parece ter aprovado a bucólica cena:
Tópico:
Animais,
Paper cutting
31 de março de 2016
MAIS UM "CAFÉ DE LA PAIX"
[Aviso à navegação: este é um post excepcionalmente longo.
Arranjar uma cadeira.]
Tenho adiado trazer aqui memórias de Paris por saber que qualquer coisa que tente desenhar já terá sido vista um milhão de vezes. Não conheço nenhuma cidade mais pintada do que Paris, ou alguma em que se vejam tantos pintores de rua no seu afã eterno. Por isso, quando finalmente me decidi, saudosa, rabiscar a cidade, resolvi evitar o Sena a todo o custo, a Torre Eiffel, claro está, e outros lugares-comuns como o Sacré Coeur e Notre Dame. Vou desenhar uma esquina, decidi. Uma cena de rua, com gente e carros, talvez um monumento, sim, mas em segundo plano. Ah, e uma esplanada! Como desenhar Paris sem as suas esplanadas? Mãos à obra, pensei, determinada. E saiu-me isto:
O que aqui vêem é o Café de la Paix, com a Ópera a espreitar em segundo plano. (Comi ali certa vez um mille feuilles com - imagine-se - pétalas de rosa que, além de me custar uma fortuna, me deu a impressão que estava a engolir um perfume de avó.) Quando acabei o desenho, longe estava eu de saber, por muito que pressentisse a concorrência esmagadora, que...
26 de março de 2016
MICHAEL CUNNINGHAM
Foi esta terça-feira, na FCSH da Nova, que vi ao vivo o autor de As Horas, tríptico belíssimo que lhe valeu o Pulitzer e a fama hollywoodesca. Anfiteatro cheio: muitos académicos, muitos alunos, alguns curiosos, uma ou outra cara pública. E uma palestra luminosa, emotiva, a prender tudo e todos de início ao fim, com um humor descontraído e uma atitude totalmente despretensiosa. Tão diferente de tantas primas-donas que pululam por aí! E a simpatia... Uma simpatia espontânea, fácil, contagiante. Aqui deixo o meu registo:
Nesta tarde recém-primaveril em Lisboa, alguém lhe perguntou da plateia sobre o acto criativo da escrita. Da resposta dele retive três ideias cristalinas. Foram mais ou menos isto (desculpem se a minha memória empobrece as palavras que ouvi):
- "Nine out of ten of my Creative Writing students say they write for themselves. Right. So I make an elaborate cake to eat it all by myself? No, everybody writes for the readers."
- "Some days I write only three sentences. And they are trash. Some other days, I write seven pages. And they seem to be pretty good! It's a mystery."
- "Bad writing differs from good writing just as dead writing differs from writing that is living. Writing that is living makes you feel: love, sorrow, fear, passion."
24 de março de 2016
AS GÉMEAS
Na glória e na tragédia. Vi-as ao vivo, como já aqui alardeei, cinco meses antes da queda. Nessa visita a Nova Iorque em 2001 vi-as primeiro ao longe, e a impressão foi singular. O skyline era, com elas, tão desproporcionado como espantoso:
Captei esta vista do ferry que faz a ligação entre Manhattan e Staten Island e nunca mais a esqueci. Como poderia?
Depois, vi as Torres Gémeas bem de perto. Subi ao terraço da Torre 2, nada modestamente chamado "Top of the World Observatory", num elevador que nos pôs a 410 m do solo (108º andar, mais dois de escadas) em apenas 45 segundos. E do deck pasmei, literalmente, para a vertigem das alturas e para a imensidão da paisagem urbana. Curiosamente, tive ali a mesma ilusão de óptica que é costume ter-se ao olhar para o cimo de uma torre ao lado da qual passam nuvens: parece-nos que oscila e vai cair. Dali de cima, também parecia que o chão longínquo se movia e que a qualquer momento a torre cairia. Bom, que sorte a minha ser ainda Abril! A torre viria a cair, sim, mas como todos sabemos em Setembro, vitimando outras pessoas, tantas, muitas decerto como nós, que ali teriam ido inocentemente, numa bela manhã de sol, admirar a vista sobre o rio Hudson e a Brooklyn Bridge.
Tópico:
Memórias,
Nova Iorque
15 de março de 2016
RUA 88
É uma daquelas ruas residenciais típicas da Nova Iorque antiga, com os seus prédios de quatro andares, robustos e dignos, ornados de bay windows, escadarias e gradeamentos por onde se espreita a sub-cave. Nos dois lados das ruas estreitas, regra geral de um só sentido, há árvores altas e imponentes. Adoro estas ruas e estas casas. Fazem-me lembrar aqueles filmes deliciosos do Woody Allen, em que ele, de passo estugado passeio fora, discorre acerca da vida, do amor e da morte.
Esta que aqui vêem é a 88ª. Fica do lado oeste do Central Park, no chamado Upper West Side. Custa a crer, vendo-a tão humana e acolhedora, que esteja em plena Manhattan, rodeada de arranha-céus. Se esticássemos o pescoço acima dos telhados seríamos esmagados por eles. Mas aqui de baixo, sem os vermos, quase parece o bairro de uma cidade pacata.
É oficial: se me mudar para o outro lado do charco, vou viver para esta rua-capicua e fazer amizade com a Annie Hall.
É oficial: se me mudar para o outro lado do charco, vou viver para esta rua-capicua e fazer amizade com a Annie Hall.
Tópico:
Memórias,
Nova Iorque
5 de março de 2016
NOVA IORQUE FORA DE HORAS
Na minha primeira aguarela nocturna, onde me debati com a escuridão do céu em contraste com a euforia dos néons, deixo a minha versão de Times Square, com todas as luzes e todas as cores:
Olhá-la faz-me sorrir: gostei de ali estar, faz agora 15 anos, apesar da confusão, do ruído, dos apertos, dos engarrafamentos e do caos. Há vida, a rebentar pelas costuras! Noutra fotografia resgatada a um dos meus álbuns de viagens, aqui fica como de costume a minha pessoa, flashada e espectral, mais uma no meio da multidão:
Tópico:
Carros e outros veículos,
Memórias,
Nova Iorque
1 de março de 2016
BOLO DE NOIVA NA GRANDE MAÇÃ
Não, não fui a um casamento a Nova Iorque. Com o meu título culinário de hoje, meramente metafórico, regresso ao coração de Manhattan, ao ano de 2001. Sim, isso mesmo: fui ali, com grande pontaria, no ano do ataque às Torres Gémeas, embora cinco meses antes, em Abril portanto. Mas do que venho aqui falar é de outro ícone da cidade, o Guggenheim, felizmente incólume até hoje. Com os seus vários andares cilíndricos, brancos, a alargar para o topo, o museu sempre me pareceu um bolo de noiva ao contrário. Aqui o evoco, como tributo a Frank Lloyd Right, que o projectou como um "templo da mente". De resto, fica o bulício típico da 5ª Avenida, os yellow cabs e, ali mesmo ao lado, o verde do Central Park:
Tópico:
Memórias,
Nova Iorque
24 de fevereiro de 2016
PEDRA FRIA EM DIA CÁLIDO
De volta ao desenho in situ, aqui na urbe. Uma rua sem carros, casas coloridas, a torre de uma igreja (what else?, Braga will be Braga), as traseiras da Arcada, arcada também. 18ºC em Fevereiro! Mas o meu rabo gelado, porque sentado no degrau de pedra. E um desenho certinho, teimosamente certinho:
Depois, em casa, as cores, numa paleta variegada e vibrante, em honra deste calorzinho fora de estação (e também porque não consegui escurecê-las decentemente, pffff):
Tópico:
Braga
22 de fevereiro de 2016
PEOPLE GOING BY
The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
Louis Armstrong ("What a wonderful world")
É muito giro observar pessoas a passar na rua, embrenhadas nos seus assuntos e com o fito dos seus destinos. Algumas vão absortas; outras falam sem parar. Há as que vão relaxadas; outras passam esbaforidas. Estas que aqui tentei desenhar, em escala reduzida (2cm por figura), foram captadas em Paris, em frente à Opera, quando eu, sentada na escadaria, fazia horas para apanhar o comboio que me levaria ao aeroporto. Daí a diversidade étnica e de indumentária dos transeuntes, entre os quais até se via uma japonesa de kimono:
Não há como a figura humana para dar vida e alma a um desenho! Claro que o problema é apanhar as pessoas sem parecerem zombies ou bonecos articulados. Tenho um triste cadastro de mostrengos nos meus cadernos... Mas toca a praticar, e talvez a coisa vá!
16 de fevereiro de 2016
UM CAFÉ EM CRACÓVIA
Dá para a Praça do Mercado, tem um certo toque Art Deco, floreado e orgânico, e com a sua esplanada primaveril é uma pequena pérola no coração da cidade. "Europejska", diz no letreiro verde forte:
Eu entrei, claro, para me proteger do vento e para tomar uma bebida quente. O interior, forrado a madeiras e veludos, com aquele ar de casa da avó, acolheu-me como o abraço de um velho amigo.
13 de fevereiro de 2016
DE CALECHE PELA PRAÇA
Estive na Polónia há dez anos, num intercâmbio docente Erasmus que me levou a Cracóvia e a Krosno. Sabia que Cracóvia era considerada a cidade mais bonita do país - monumental e histórica, mas também pitoresca e romântica. E não fiquei desiludida! A enorme Praça do Mercado, com a Basílica de Stª Maria num dos lados, é encantadora. Várias caleches percorrem o perímetro, mas eu, que prefiro como turista não fazer figuras mais tristes do que as estritamente necessárias, abstive-me, claro. Pude no entanto contemplá-las, no seu charme retro, com o recorte renascentista do mercado e a torre gótica da basílica ao fundo:
Estávamos em Maio, mas enquanto que em Portugal já faziam 25ºC, fui encontrar lá uns 13º-14º. Alguns afoitos (como o do kilt, abaixo) já se atreviam com manga curta, mas o wind chill pedia casacos - dos quentes, de preferência, que faltaram na minha mala! Aqui, vê-se a fachada oposta do mercado, com a torre da Câmara a surgir por trás, e eu a disfarçar os arrepios:
12 de fevereiro de 2016
A PRIMEIRA CIDADE DO ALFABETO
Se não o é, perfila-se como boa candidata, já que começa não só com um "a" mas com dois. Aarhus - que se pronuncia "Orruss" - é a segunda maior cidade da Dinamarca, e no entanto é uma localidade sossegada e clean, com um rio domesticado e uma agradável zona de cafés e restaurantes nas suas margens. É justamente essa zona, por onde deambulei numa escapadela do congresso, que este desenho evoca:
Se no último "post" saímos da cidade e fomos ao castelo, desta vez mostro Aarhus downtown. Não se pode dizer que seja uma paisagem urbana marcante ou que cause muito entusiasmo. A paleta é incaracterística, os prédios muitas vezes banais e, no final de Agosto, as esplanadas já têm os aquecedores ligados. Mas não se vê pobreza nem degradação e tudo funciona sem problemas. É a cara e a coroa dos países nórdicos.
3 de fevereiro de 2016
O CAVALEIRO DA DINAMARCA
O cavaleiro não o vi, mas o castelo dele – ou que poderia ser dele, a Sophia que confirme – sim. Foi em 2008, nas imediações de Aarhus (mais concretamente em Auning, uns quilómetros a nordeste), que visitei este castelo encantador: Gammel Estrup. A construção mais antiga é do séc. XIV, mas li que foi com as sucessivas gerações da família Skeel, uma das mais importantes da aristocracia dinamarquesa, que ao longo dos séculos seguintes o castelo conheceu o apogeu. Em 1930 foi transformado num museu. Visitei-o com os colegas de uma conferência internacional, numa excursão de uma tarde de Agosto. Aqui está a minha versão do que vi:
E aqui estou eu, de crachá ao peito e saco da conferência na mão, recém apeada do autocarro:
E aqui estou eu, de crachá ao peito e saco da conferência na mão, recém apeada do autocarro:
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